A Irlanda adota um sistema de permissões de trabalho baseado em sua política de migração econômica. Na prática, isso significa que trabalhadores não europeus só podem ser contratados quando não há candidatos adequados disponíveis na Irlanda ou na União Europeia (UE), seguindo o chamado princípio da preferência.
No último dia 02 de dezembro de 2025, os ministros do Department of Enterprise, Tourism and Employment (DETE) anunciaram a conclusão de uma revisão importante no sistema, com impactos diretos tanto para empregados estrangeiros e empresas.
As mudanças fazem parte da revisão do Roadmap iniciado em 2023 e definem novos rumos para os salários mínimos exigidos, além de ajustes estruturais que devem continuar até o final de 2030.
O objetivo central dessas reformas é corrigir anos de defasagem salarial, proteger melhor os direitos dos trabalhadores e manter a Irlanda competitiva na atração de talentos internacionais, especialmente em um contexto de escassez de mão de obra e envelhecimento da população, tudo em conformidade com a nova Employment Permits Act 2024.
O que é o MAR e por que ele é tão importante no contexto das permissões de trabalho na Irlanda?
O Minimum Annual Remuneration (MAR) é o salário mínimo anual, com um valor por hora associado, exigido para a concessão ou a renovação de um work permit na Irlanda.
Esse valor sempre foi superior ao salário mínimo nacional, com três objetivos principais: garantir que o trabalhador migrante tenha condições de se manter no país sem depender de benefícios sociais; evitar a pressão negativa sobre os salários gerais do mercado; reduzir riscos de exploração e abusos trabalhistas.
O problema é que, por muitos anos, esses valores ficaram praticamente congelados. Enquanto isso, a inflação, o custo de vida e os salários médios na Irlanda cresceram mais de 40%. Esse descompasso levou o governo a rever todo o sistema.
Vale lembrar que a remuneração mínima anual de €30.000 foi definida ainda em 2006 e mantida em 2014, quando surgiram os dois principais tipos de permissão: o General Employment Permit (GEP) e o Critical Skills Employment Permit (CSEP).
Essa estagnação contribuiu para o aumento de permissões para funções menos qualificadas e pior remuneradas. Como consequência, muitos trabalhadores passaram a enfrentar dificuldades práticas, como não usufruir do reagrupamento familiar.
Retrospectiva dos ajustes salariais no mercado de trabalho da Irlanda
A primeira tentativa de corrigir os salários defasados aconteceu em 20 de dezembro de 2023.
O então Ministro Neale Richmond elevou a remuneração mínima anual do GEP de €30.000 para €34.000 e do CSEP de €32.000 para €38.000.
Essas mudanças entraram em vigor em 17 de janeiro de 2024, conforme o decreto S.I. No. 680/2023. Também foram anunciadas alterações nas listas de ocupações e um plano ambicioso de aumentos progressivos para janeiro de 2025, julho de 2025 e janeiro de 2026.
Acontece que este plano inicial não era razoável já que o Governo tentava compensar quase nove anos de estagnação salarial em apenas dois anos, o que gerou insegurança jurídica e dificuldades reais para empresas e trabalhadores no planejamento de médio prazo.
Diante disso, o DETE recuou. Em 9 de dezembro de 2024, foi anunciado o adiamento dos aumentos previstos para janeiro de 2025.
A Ministra da época, Emer Higgins, abriu uma consulta pública de dois meses convidando empresas, representantes de trabalhadores e outras partes interessadas a contribuírem com sugestões. As submissões puderam ser feitas até 10 de janeiro de 2025.
As medidas anunciadas agora são resultado desse processo: levam em conta o impacto do aumento de janeiro de 2024, a necessidade de atualização urgente dos salários e, ao mesmo tempo, a importância de um ritmo mais gradual e previsível.
Principais mudanças salariais confirmadas para o trabalho na Irlanda em 2026
Após o diálogo real com o mercado, o governo decidiu reduzir o ritmo dos aumentos inicialmente previstos, mas manteve a trajetória de valorização e aumento salarial.
Assim, a partir do dia 1º de março de 2026 s salários mínimos exigidos para diferentes tipos de permissões de trabalho vão aumentar da seguinte forma:
a) GEP: o salário mínimo anual passa de €34.000 para €36.605 (aumento de 7,66%).
b) CSEP: o salário mínimo anual passa de €38.000 para €40.904 (aumento de 7,66%).
c) Permits com salários abaixo do padrão (sub-standard) – setores agro-alimentar, cuidados domiciliares e processamento de carnes: o salário mínimo anual passa de €30.000 para €32.691 (aumento inicial de 9%).
d) Graduados recém-formados: o salário mínimo anual passa a ser de €34.009 (cargos GEP) e €36.848 (cargos CSEP).
Uma das novidades mais relevantes é o retorno do incentivo à retenção de talentos formados na Irlanda, algo que havia sido limitado nas mudanças de 2023.
Recém-formados voltam a ter salários iniciais mais baixos, reconhecendo que estão no começo da carreira e facilitando a transição para o mercado de trabalho.
Essa regra vale para quem concluiu graduação NFQ Level 8 ou superior nos últimos 12 meses e se aplica tanto ao GEP quanto ao CSEP, como exposto acima.
O que esperar para os próximos anos quanto aos reajustes salariais na Irlanda?
A partir de 2026, o sistema passa a operar com indexação automática baseada em dados do Central Statistics Office (CSO), ou seja, os salários mínimos dos work permits serão sempre reajustados de acordo com o crescimento médio dos salários no país anualmente, nos termos da Section 47(4) da Employment Permits Act.
O primeiro aumento entrará em vigor em 1 de março de 2026, com ajustes adicionais implementados gradualmente até 2030.
O governo já sinalizou, inclusive, que alguns aumentos podem ficar acima da inflação, com o objetivo de alinhar gradualmente os work permits aos salários médios nacionais e reduzir a dependência de salários substandard.
Hoje, cerca de 65.000 pessoas trabalham na Irlanda com permissões válidas, sendo que quase 40.000 foram emitidas ou renovadas apenas em 2024.
Tudo indica que teremos um sistema mais previsível, porém mais exigente do ponto de vista salarial.
Perspectiva para trabalhar na Irlanda segue positiva
As mudanças recentes representam um avanço significativo na proteção dos trabalhadores migrantes e na modernização da política migratória econômica da Irlanda.
Embora os aumentos salariais tenham sido moderados em relação ao plano original, a direção é clara: salários mais altos, mais previsibilidade e menos distorções entre setores.
A Irlanda permanece próxima do pleno emprego, com o desemprego em 4,7% em agosto de 2025, o nível mais baixo desde 2001. Com exceção da desaceleração relacionada à covid19 em 2020, a demanda por permissões de trabalho tem aumentado de forma constante ano pós ano.
Para os trabalhadores, especialmente recém-formados e profissionais qualificados, o novo modelo cria oportunidades mais justas e sustentáveis. Para as empresas, o desafio será se adaptar gradualmente a um mercado de trabalho mais valorizado e mais competitivo.
Se você já trabalha, planeja trabalhar na Irlanda ou contratar talentos internacionais, acompanhar essas mudanças será essencial nos próximos anos.
Este artigo tem caráter meramente informativo foi elaborado com base na legislação e nas políticas de imigração vigentes, que estão sujeitas a alterações. Acompanhe nosso blog e nossa página no Instagram.
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